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Algumas semanas atrás conheci uma garota que frequentou muito minha cidade natal. O engraçado é que foi preciso atravessar o mundo pra tudo isso acontecer. Durante a conversa nós compartilhávamos lembranças desse lugar que morro de saudade. Num determinado momento, chegamos ao assunto: Emílio, o mendingo da cidade. E é sobre ele que eu vim falar hoje.

O Emílio é um caso a parte. Aquele tipo de pessoa que todo mundo deveria conhecer, sabe? Um museu ambulante, e que como todo mundo costumava dizer: cheio de histórias e coisas pra contar. Ele era quietão, sempre na dele, não bebia e andava pela cidade descalço, com uma sacola nas costas. Foram poucas as vezes que eu o vi sem barba, coisa que só acontecia porque algum dono de barberia muito gentil o chamava pra limpar o rosto e dar uma renovada no visual de graça, afinal, ele não tinha um puto no bolso. Mesmo sem nada, aquele homem tinha tudo. Emílio era o tipo de pessoa que parecia gostar de ser invisível. Fazia o possível pra nunca ser notado e jamais te incomodar. Mas se você quisesse conversar, ele estaria alí pra bater papo até cansar! Enquanto os outros moradores de rua deitavam na calçada da cidade e pediam dinheiro, ele sempre estava passeando ou na maioria das vezes sentado num banco de concreto de frente pra praia. Eu nunca tive medo de passar perto dele, como muita gente tinha, afinal, ele era um morador de rua, até que ponto eles podiam confiar naquele estranho? Será que ele me roubaria? Não. Não o Emílio, que por sinal, até salvou essa amiga de um assalto. Dá pra acreditar?

Apesar de ser tão gentil e adorar conversar, ele também era desconfiado. Tem bicho homem por aí que carrega a maldade por onde passa. Já tentaram envenenar o Emílio. Já passaram navalha no pé dele enquanto ele dormia no ponto de ônibus e até agredido ele já foi. Mesmo assim, sabe-se lá como, ele continuava sendo uma pessoa boa. As especulações sobre a vida dele foram muitas, e até hoje eu me pergunto como ele chegou naquela situação. Eu mesma, nunca tive coragem de perguntar. A maioria das histórias falava que ele era um médico muito rico quando jovem, morava em São Paulo, mas teve uma decepção amorosa e se mudou pro litoral largando tudo pra trás. Se é verdade  ou não, aí já é outra história.

Lembro bem de um dia que passei resolvendo coisas do trabalho e tinha que tomar um lanche rápido antes do colégio. Parei numa cantina famosa da cidade, pouco depois das 18 horas, e devorei meus salgados com uma coca bem gelada. Eu estava sentada na ponta do balcão, ao lado de uma lata de lixo. Ele chegou de mansinho, fazendo o possível pra não fazer barulho, não causar alarde e nem levar bronca. Revirou o lixo e pegou dois salgados, um inteiro e outro com apenas uma mordida. Aquilo foi de cortar meu coração, e eu só não estava pior do que ele porque tinha os últimos 5 reais no bolso. Embora o salgado tivesse vindo do lixo, ainda era um alimento, né? Meio que por impulso eu pedi mais uma coca cola. Terminei de comer e quando ele se preparava pra sair eu chamei ele pelo nome.

A primeira surpresa dele veio quando viu que eu sabia como ele se chamava. Já pude perceber pela cara dele. Quando ele se virou pra mim, eu estendi a coca e disse: “Toma Emílio, é pra você.” A situação toda foi tão bonita que até escrevendo esse texto eu consigo sentir o coração apertado e os olhos cheios de lágrimas. Ele olhou pra mim surpreso, esboçou um sorriso e eu podia ver o olho dele brilhando. Pegou a coca, agradeceu duas ou três vezes com um “obrigado” vergonhoso e de cabeça baixa. E se foi. E aquela foi a primeira (e última) vez que eu falei com o Emílio.

Eu nunca quis espalhar por aí sobre esse dia que compartilhei com ele porque acredito que quando você faz o bem não precisa mostrar para o mundo que você fez uma boa ação. Acho que esse tipo de coisa a gente faz por nós, não pra sair como o foda da caridade.  Planejei na minha cabeça milhares de cafés como aquele primeiro dia, mas dessa vez, com mais calma pra poder ouvir um pouco mais sobre ele e saber a real história que ele carregava. Mas agora é tarde demais. Emílio se foi há alguns meses e eu nunca pude voltar pro tal café. Eu espero que ele esteja melhor, limpinho, sem barba, com uma cama gostosa e um cobertor bem quentinho pra dormir, onde quer que ele esteja agora. Hoje fico aqui lembrando de alguém que eu nem conhecia muito, mas que tenho certeza que tinha um coração puro, acolhedor, e que vocês também deveriam conhecer. Mesmo que por um texto meu, com o pouco que sei.

E você, tem alguma história pra contar? Conte sobre alguém que você acha que todo mundo deveria conhecer! 

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